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Por que é preciso cuidado com as fake news da tecnologia

UOL Tecnologia

11/11/2019 04h00

Nos próximos anos, tecnologias como robótica, inteligência artificial, impressão 3D e biotecnologia nos trarão desafios novos. Não apenas desafios técnicos, mas principalmente éticos, morais e legais.

Pela tecnologia, mudamos a maneira de pensar e agir. Como fazemos compras, como conversamos, como comemos, como nos locomovemos e assim por diante. Indo além, tem forte impacto em privacidade, política, empregos e segurança. E terá cada vez mais.

Este é um assunto sério e que precisa contar com a pressão e a participação da sociedade civil. E justamente por isso, não podemos cair no radicalismo e polaridade que outros assuntos têm sido tratados. Existe uma prática que pode dificultar imensamente essa discussão: as fake news da tecnologia. Aqueles conteúdos que colocam a tecnologia como vilã absoluta ou como salvadora da pátria.

Já entendemos o quanto política e economia mudam nossas vidas e como essas duas aéreas podem e são manipuladas. Agora precisamos entender que tecnologia também.

Isso vale para casos mais leves, como a imensa publicidade que o 5G está recebendo, sendo tratado como algo totalmente revolucionário. Dizendo que, por exemplo, vai resolver o problema de Internet das Coisas quando isso não é inteiramente verdade. Obviamente que no caso do 5G este não é um problema tão grande visto que o investimento na tecnologia é necessário e, portanto, o marketing em cima dela, também. O exagero pode ser perdoado ainda que as pessoas que divulgam a tecnologia como milagrosa estejam fazendo papel de bobas.

Mas existem outras ações que não são tão inocentes e que ganham muita atenção. É o caso da máquina que faz suco de laranja e usa a casca da fruta para fazer copos descartáveis. Magnífico. Reciclagem, economia circular e impressão 3D. Não tem como não viralizar e aparecer na timeline de todo mundo.

Acontece que, para fazer os copos, ela usa ácido poliláctico. Para quem não sabe o que é isso, este é o plástico mais comum usado nas impressoras 3D. Ele tem, sim, base biológica, mas não é biodegradável, é degradável. Aliás, esta é outra mentira que todo mundo repete. Todo plástico é degradável, mas poucos são biodegradáveis.

Sim, ainda é melhor que outros plásticos por uma série de motivos, mas, para degradar, ele precisa de condições específicas e, portanto, estações de reciclagem especiais. E conhecendo os plásticos compostos de impressão 3D, eu chutaria que eles devem estar usando no mínimo 70% de plástico com apenas 30% de casca.

A tecnologia utilizada (FDM) pela solução não é considerada "food safe" porque gera microporos que juntam bactérias. Este é o motivo pelo copo ser descartável, podem ser usados por um dia ou dois, mas não recomendado além disso.

Então, basicamente, estamos pegando a casca da laranja e juntando com bastante plástico em um copo que será usado uma ou duas vezes. E agora? Ainda acha a solução uma maravilha? Ainda acha que temos uma boa solução para fazer copos descartáveis?

É claro que, neste caso, é muito difícil para as pessoas entenderem o truque, visto que demanda um entendimento mais profundo sobre a tecnologia. Mas, na maioria dos casos, uma simples busca no Google seria capaz para mostrar que o produto não existe ou que a maneira como está sendo divulgada é mentirosa. O canal do YouTube Corridor, especialista em efeitos especiais criados por computador, criou uma versão 3D do fantástico robô da empresa Boston Dynamics em um vídeo onde ele se revolta contra os humanos.

Mesmo monstrando o making of no final do vídeo, deixando claro que ele é falso, partes do vídeo foram divulgadas por algumas pessoas como se fossem verdade. O vídeo seria muito bom para ser usado para gerar discussões sobre políticas mundiais limitando o uso de IA e armas automatizadas, mas viralizou na web apenas como se fosse verdade.

Outro exemplo: você já deve ter visto a robô Sophia. Ela conversa, faz mil expressões, demostra sentimentos, opiniões, faz piada e tudo mais. É realmente assustador como ela parece um ser vivo. Mas é absolutamente fake. O que chamamos de PR Stunt, ou seja, um golpe de publicidade para atrair a atenção dos consumidores.

Suas respostas são escritas por roteiristas e programadas em seu sistema, não diferente de qualquer robô de loja que você já conversou pelo Facebook ou WhatAapp. Na verdade, ainda pior, diferente de um chatbot com consumidores que não temos certeza sobre o que eles irão perguntar, em boa parte das entrevistas em programas de TV, o script de Sophia é cuidadosamente combinado e ensaiado, com perguntas e respostas combinadas para gerar mais graça ou espanto da audiência. Até mesmo suas expressões são manipuladas, com um ser humano usando um controle a distância.

Por estes motivos todos, a iniciativa já foi muito criticada por especialistas em inteligência artificial como Joanna Bryson (pesquisadora de Ética em IA na Universidade de Bath) e Yann LeCun, (Cientista Chefe de IA no Facebook). Porém, o que chamou mais atenção foi o fato da Arábia Saudita ter dado cidadania para Sophia, o que equivaleria ao Brasil dar cidadania a Lu, a personagem virtual da Magazine Luiza.

Na verdade, isso foi mais uma jogada de marketing, para promover um evento de tecnologia que rolou no país. E deu muito certo. Em parte porque alguns jornalistas não têm tempo – ou não se preocuparam – em ir mais a fundo na notícia. Até porque, a notícia sobre a cidadania é verdadeira e criticar como estou fazendo aqui não é compreendido por alguns com o papel do jornalismo.

Mas esta discussão é muito mais profunda e não se limita ao jornalismo, mas a todos nós. Em época de fake news e discussões acaloradas é muito difícil pedir isso, mas todos nós precisamos ter pé atrás com tudo o que estamos lendo. Vocês já sabem que isso vale para política e outros assuntos. Meu alerta aqui é apenas dizer o óbvio, isso também vale para a tecnologia.

Sobre o Autor

Ricardo Cavallini é jurado do programa Batalha Makers Brasil, fundador da plataforma Makers e criador do RUTE, o kit educacional eletrônico mais acessível do mundo. Já escreveu seis livros sobre tecnologia, negócios e comunicação, foi apontado como uma das mentes mais inovadoras do setor no Brasil e recebeu dezenas de prêmios internacionais. Além de ter fundado a primeira agência digital do país, foi diretor de empresas como F/Nazca Saatchi & Saatchi, Euro RSCG 4D, W/Brasil e Organic inc. Na WMcCann, era vice-presidente de convergência.

Sobre o Blog

No blog, vai trazer dicas, debates e os vídeos que faz para quem curte o universo maker --sempre com uma linguagem fácil, para quem ainda não é expert.

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